A guerra iniciada no último sábado (28), com o bombardeio do Irã por forças dos EUA e de Israel, acendeu o alerta no mercado brasileiro de milho devido à importância da demanda iraniana para as nossas exportações.
Tradicional comprador de milho brasileiro, o Irã bateu recorde de importação em 2025 e foi o principal destino do cereal embarcado pelo Brasil, com um total de 9,1 milhões de toneladas, ou 22% do total embarcado de 41 milhões de toneladas.
A participação do Oriente Médio como um todo nas exportações de milho do Brasil chegou a 32% em 2025. Considerando também o norte da África (onde fica o Egito, segundo principal destino do milho brasileiro no ano passado), a fatia alcançou 59%.
BRASIL | Principais Destinos da Exportação de Milho em 2025
SECEX/AGRURAL Em milhões de toneladas.
Como as exportações de milho do Brasil se concentram no segundo semestre, quando a safrinha entra no mercado, no momento a guerra tem impacto praticamente nulo sobre as exportações do cereal para o Irã e outros países do Oriente Médio. Também não há impacto sobre os embarques para o norte da África, cujos países, por enquanto, não estão envolvidos no conflito e podem ser acessados por rotas marítimas que não estão prejudicadas pelos bombardeios.
BRASIL | Exportação Mensal de Milho
SECEX/AGRURAL Em milhões de toneladas.
Na segunda metade de 2026, porém, o fluxo de embarques poderá ser prejudicado. No momento, seriam três os cenários mais prováveis:
Cenário 1 – Guerra avança segundo semestre adentro
Com a guerra ainda em curso, o milho só chegaria ao Irã e países próximos se houvesse salvaguardas internacionais para o livre tráfego de navios com alimentos. Mesmo assim, o alto custo do frete e do seguro e problemas econômicos seriam entraves importantes ao comércio, reduzindo os embarques brasileiros.
Cenário 2 – Guerra termina, mas regime não muda
Com a eventual manutenção do regime teocrático no Irã, o país continuaria sofrendo sanções internacionais e dando preferência ao milho do Brasil e da Rússia, numa situação semelhante à observada antes da guerra.
Mesmo assim, a chance de instabilidade econômica e social após os bombardeios seria muito grande e influenciaria negativamente as importações iranianas de milho. Nos países vizinhos, porém, a situação poderia voltar a algo mais próximo da normalidade de forma mais rápida.
Cenário 3 – Guerra termina e regime muda
Com a instalação de um regime mais semelhante aos das democracias ocidentais, o Irã provavelmente deixaria de sofrer sanções internacionais, e isso beneficiaria o comércio de um modo geral, favorecendo também as importações iranianas de milho. O país, porém, poderia se abrir a outras origens, como EUA e Argentina, eventualmente reduzindo suas compras de milho brasileiro.
Antes de se chegar a esse cenário, contudo, ainda haveria um período de transição com instabilidades econômicas e sociais que poderiam limitar as importações no segundo semestre de 2026.
Perda de espaço do Brasil
Embora o Irã seja um importador de destaque do milho brasileiro já há muitos anos, a AgRural vem chamando a atenção de seus clientes, desde 2024, para o aumento da dependência das nossas exportações de milho em relação a países marcados por maior instabilidade política, econômica e social.
Em 2025, enquanto 41% das nossas exportações de milho tiveram Irã e Egito como destino, os EUA, com seu milho farto e barato, recuperaram terreno em mercados de demanda forte e confiável, como Japão e Coreia do Sul, entre outros.
Em 2025, o Brasil exportou apenas 260 mil toneladas para o Japão, por exemplo, com queda de 5,7 milhões de toneladas em relação a 2023, quando as exportações brasileiras foram recordes. No mesmo período, os embarques dos EUA para o Japão tiveram aumento de 8,1 milhões de toneladas.
Isso tem acontecido não apenas porque o milho do Brasil se tornou caro (via maior demanda doméstica e real valorizado), mas também devido às incertezas que quase sempre cercam a nossa oferta do cereal.
Com quase 80% da nossa produção anual de milho colhida na safrinha, o risco climático envolvido na oferta brasileira de milho é sempre muito grande. Na dúvida, muitos importadores têm antecipado parte de seu abastecimento nos EUA já no primeiro semestre, antes mesmo da definição do tamanho da safrinha brasileira.
MILHO | Variação* da Exportação do Brasil e dos EUA
SECEX/USDA/AGRURAL Em milhões de toneladas. *Variação da exportação de 2025 em relação à exportação de 2023.
Outros impactos: custos e demanda doméstica
Além do impacto nas exportações brasileiras de milho, a guerra no Oriente Médio também eleva os custos de produção, ao encarecer combustíveis e fertilizantes – a região é importante produtora e exportadora tanto de petróleo como de matérias-primas para adubo.
Outro foco de atenção são as exportações brasileiras de carne de frango. Em 2025, 30% dos nossos embarques tiveram o Oriente Médio como destino. Se houver interrupções importantes no fluxo de carne de frango para a região, e caso a redução não seja compensada pelo aumento das vendas para outros destinos, poderá haver arrefecimento da demanda interna por milho e farelo de soja para produção de ração animal.
E o preço do milho com isso?
Por mais que a formação dos preços do milho brasileiro venha mudando devido ao forte aumento na produção de etanol, tanto a exportação como o consumo animal ainda são frentes muito importantes de consumo, que dão liquidez ao mercado.
Por isso, a guerra no Oriente Médio poderá ter efeito negativo sobre os preços do milho recebidos pelos produtores do cereal, especialmente se não houver quebra da safrinha 2026 e se a alta recente do dólar não se sustentar nos próximos meses.
CASCAVEL (PR) | Preço Diário do Milho no Mercado Disponível
AGRURAL Em R$ nominais por saca de 60 kg, FOB.
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